Arnaldo Carlos de Mendonça
Recentemente, sentimos uma grande angústia diante de cenas repugnantes que presenciamos em novela veiculada na maior emissora de televisão do país.
O verdadeiro caminho das índias não pode ser aquele mostrado na novela para os milhões de jovens e famílias. Uma gangue de filhinhos de papais e de mamães (antes eram só de papais), agridem, oprimem e humilham alunos da sua escola, com total apoio da família e dos amigos, diante do temor de professores e funcionários da escola.
A autora deveria avaliar melhor os efeitos que a sua estória pode causar na sociedade. E não me venha com argumentos de que a vida é assim, porque não é. Cansamos de ficar inertes ante a violência, a falta de respeito à diversidade, o bulling e a inoperância de gestores educacionais.
O mau exemplo que a novela transmite é que a diretora da escola particular (pelo menos é o que deduzimos, a partir da classe social dos pais meliantes), não tem formação, competência ou postura moral diante dos absurdos que acontecem no estabelecimento escolar. Queremos esclarecer que a tal diretora não existe. Ninguém assiste diariamente a cenas de torturas explícitas na escola sem tomar atitude. Esta não é a realidade das nossas escolas.
A inércia da diretora diante dos absurdos cometidos por delinquentes da classe média/alta é repugnante. Queremos esclarecer que cenas como aquelas são típicas de novelas, que tentam banalizar ações de bandidos juvenis como se fossem atitudes normais de adolescentes. Que os digam índios e mendigos incendiados!
Poderíamos até imaginar que “o cara” vai levar a pior no final (é sempre assim nas novelas, para agradar ao público), mas não convence, porque muita água ainda vai rolar. Uma lição de ética no final só interessa à emissora, que já vendeu seus espaços comerciais durante os meses em que a novela foi ao ar, enquanto inúmeros jovens brasileiros, que imaginam o mundo real igual às novelas, estarão praticando os mesmos crimes, inspirados naqueles ídolos televisivos.
Nosso argumento já está em curso: recentemente vimos reportagem da própria emissora em telejornal mostrando briga violenta entre dois adolescentes de Santa Catarina, inflamados e provocados pelos colegas, até o sangue jorrar no rosto dos dois. Na semana passada, jovem de 13 anos leva revólver da família para mostrar aos colegas da escola. Em Recife, aluno de 13 anos é espancado por um outro de 16, sendo atendido no Hospital da Restauração.
Alguém duvida que a violência das telas estimula as cenas reais? Os jovens vestem o que as novelas mostram, falam gírias que os atores propagam, vivem as regras que as novelas ditam. Não é novidade encontrar pessoas trajando vestimentas e adornos indianos, amplamente divulgados nos noticiários e campanhas publicitárias. Será que apenas a violência das novelas não será copiada?
Poderemos até ser ignorados pela sociedade, mas não seremos omissos. Queremos externar a nossa indignação diante dos absurdos que presenciamos. A escola que fazemos e acreditamos é bem diferente daquela da autora. É uma escola voltada para a disciplina que constrói. Uma escola que torna os aprendizes seres humanos dignos, éticos e solidários. Uma escola que acredita que o bem sempre vencerá o mal.
Desejamos que na próxima novela sejam cultuados os verdadeiros valores da educação. Que apareçam os educadores vencedores, tratando os seus alunos como seres humanos em formação, acreditando que são capazes de evoluir. São muitos os gestores que primam pela disciplina cidadã, usando do afeto, da justiça e da firmeza com alunos e pais. Estes, sim, merecem ser tema de novela.
Arnaldo Carlos de Mendonça é diretor executivo do SINEPE-PE e Conselheiro Estadual de Educação – PE
